CHAMADO
AO DESERTO
- Os
2,16: Agora, sou eu que vou seduzi-la.
Vou levá-la ao deserto e conquistar o seu coração.
- Os
2,21: Eu me casarei com você para sempre. Me casarei com você na justiça e no
direito. No amor e na ternura. Eu me casarei com você na fidelidade e você
conhecerá Jave.
O
Deserto é o lugar da solidão e do despojamento, onde a pessoa vivencia, de modo
radical, o amo de Deus e a misericórdia para com os irmãos. Através da
história, o deserto mantém a sua importância fundamental para a espiritualidade
bíblica e cristã.
Entramos
na solidão do deserto para encontrar Jesus e estar com ele e só com ele. Com
Jesus encontramos a nós mesmos/as; encontramos a nossa essência, o nosso eu, a
minha natureza, quem eu estou sendo, quem eu quero ser. É somente lá, no mais
profundo do nosso ser, com a iluminação divina, que poderemos nos encontrar; ou
seja, que poderemos vislumbrar o sonho
de Deus para a nossa existência. Somos um projeto maravilhoso de Deus. O deserto é um meio para um encontro vivificante
com Deus e com a essência do nosso ser.
O
deserto tem seus próprios valores. Traz em si o sinal da aridez, do
despojamento para todos os sentidos, tanto para a vista como para os ouvidos.
Traz em si o sinal da pobreza, da austeridade, da profunda simplicidade; o
sinal da total incapacidade do ser humano, que nele descobre sua fraqueza, pois
o ser humano no deserto, nada pode fazer para subsistir por si mesmo, sendo
obrigado a só em Deus buscar força e socorro. É Deus que nos conduz ao deserto.
Experienciar o deserto é uma tentativa de caminhar despojado, fraco, sem
qualquer apoio humano, no jejum de todo alimento ao encontro de Deus. A oração
no deserto é uma espera do alimento que Deus vai enviar, como fez com Elias e
com os hebreus na sua caminhada exodal-pascal.
O que é
muito importante na experiência do deserto é o despojamento total e espera
pacífica e silenciosa de Deus. Essa espera passiva e orante se torna um grito
de súplica lançado a Deus. Para ir ao deserto é preciso crer que Deus pode vir
a nosso encontro na contemplação e, para saborear a graça de sua visita, é
preciso desejá-la com alegria e confiança. É preciso a humildade do coração, a
aceitação da austeridade e simplicidade dessa forma de encontro com Deus. É
também na nudez do deserto que cairão as ilusões de tudo que entulha nosso
coração. Só pode caminhar sozinho na experiência do deserto quem tiver o
coração simples e pobre. O encontro contemplativo com Deus no deserto é a fonte
de nossa fidelidade às exigências de uma vida contemplativa e missionária.
DESERTO:
UMA ESPIRITUALIDADE LIBERTADORA
Entramos
na solidão do deserto para encontrar Jesus e estar com ele e só com ele. Com
Jesus encontramos nossa verdadeira natureza e jeito de ser e viver. É um
verdadeiro encontro consigo mesmo que brota do encontro com quem unicamente
pode nos fazer mudar para melhor. A verdadeira solidão mística nunca nos
deixará longe de Deus, nem de nós mesmos, pois é um encontro vivificante com
Deus, fonte de nossa vida e espiritualidade. Segundo Galilea desenvolve quatro
pontos para compreender melhor a experiência contemplativa e agraciante do
deserto (A
graça da desolação: influência dos padres do deserto na espiritualidade contemporânea.
Loyola, l988):
1º Tudo é relativo diante do absoluto que é
Deus. No deserto estamos a sós diante de Deus e sua presença amorosa vem
nos plenificar a dar sentido as nossas vidas. Não necessitamos de mais nada;
despojamo-nos de todas as outras realidades. É um despojamento radical para
podermos amar e buscar Deus com todo o coração. Só Deus basta! Ele á a rocha
que sustenta a nossa vida tantas vezes ameaçada pelas nossas fragilidades.
Assim, no deserto, todas as coisas são relativas e relativizadas.
2º Diante do Criador conhecemos na verdade
quem somos. O deserto é lugar da autenticidade, da transparência e da
verdade. A ambiguidade de nossas motivações e de nossa generosidade e
gratuidade vêm à tona, e nos vemos tais quais somos, ou melhor, tais como Deus
nos vê. O deserto é lugar de conversão e da purificação e pacificação do
coração. Pois se em verdade buscamos a Deus, a tomada de consciência leva-nos a
optar pela luz que o deserto nos revela e a despojar-nos das trevas dos nossos
motivos e das nossas atitudes. Leva-nos a fazer calar as vozes enganosas que
surgem dos ídolos da sociedade neoliberal, das ideologias, da riqueza e do bem
estar, do prestígio e do poder, das compensações sutis do prazer. O deserto é
caminho da libertação interior.
3º Recebemos um amor que transborda de nós. O
deserto ensina-nos a amar verdadeiramente. O aprendizado do amor fraterno
requer de nós uma atitude fraternal. A solidão dá lugar à compaixão e
misericórdia porque nos faz morrer ao próximo. Uma das grandes expressões da
libertação em nossa vida é a vivência do amor fraterno. Precisamos sair do
egoísmo que nos afasta dos nossos irmãos e irmãs.
4º Pela batalha é que conseguimos a vitória. O
deserto é lugar da tentação e da provação, da crise e também da sua superação.
Toda vitória passa pela batalha. O sentido da ascese, da abnegação e da luta
contra as paixões é de grande valia para nós que constantemente buscamos a
Deus. Buscamos alcançar um amor maior a Deus e aos irmãos e irmãs.
DESERTO:
EXPERIÊNCIA DO SACRAMENTO DO MOMENTO PRESENTE
O momento presente é nosso espaço de vida espiritual. Esse é o
lugar a partir do qual começamos a entrar, o mais plenamente que pudermos, no
momento presente, descartando todas as coisas passadas e futuras que possam
fazer que a nossa atenção perca seu foco exclusivo em Deus. Esse é o único
lugar da mãe terra em que o tempo pode tocar a eternidade. Para santificar esse
lugar e consagrá-lo a Deus, os padres do deserto fizeram um tempo prolongado de
reconciliação com Deus, e nele, com seus irmãos e irmãs. Tornou-se momento de
purificação e pacificação pessoal, para que nossas culpas passadas não nos
perturbassem. O momento presente é sacramento, pois se trata do único momento
que o tempo toca a eternidade.A oração é a oferta que faz dele um lugar
sagrado, em que o humano e o divino encontram-se, formando uma unidade.
Deserto é o momento em que nos
colocamos livres para algo da maior importância em nossa vida, que é amar e
vivenciar ser amado. Jesus também quis, mais do que tudo, receber e vivenciar o
amor do Pai. Quis também retribuir e partilhar com outras pessoas o que
recebera. Isso implicar em estruturar sua vida de modo que pudesse ter constante acesso ao amor
que partilharia com seus irmãos e irmãs.
Jesus ia ao templo e à sinagoga com seus discípulos. Passava momentos pessoais
de solidão contemplativa. Ele soube descobrir e usufruir o momento presente,
buscando um espaço de vida espiritual.
Ele orientava seus discípulos a evitar fazer a oração de modo ostentatório pela
qual muitos escribas e fariseus rezavam em público, a fim de atrair a atenção
para si. Por isso, o deserto é uma graça – estar a sós com Mestre!
É bom ter um pequeno espaço de vida espiritual, uma
capelinha nos fundos da casa, para podermos nos retirar ao nosso deserto, e ali encontrar a liberdade interior para
receber e vivenciar o mesmo amor que inspirou Jesus e transformou tudo aquilo
que ele fez.
COM
JESUS NO DESERTO
Ir. Carlos de Foucauld deu uma
ênfase à vida de fraternidade solidária entre os pobres. O segredo de um
comprometimento missionário passa pelas nossas experiências de deserto, isto é,
nossa contemplação nos vários espaços de
vida, onde estamos diante do Mestre do nosso caminhar. A oração meditada e
contemplada da Palavra de Deus, na qual aprendemos ser e viver como discípulos
e discípulas amados a maneira de Jesus ser e viver. Com Jesus identificamos as
raízes da nossa missão e fazemos o discernimento necessário para fazer sempre a
vontade do Pai.
Para os irmãozinhos de Carlos
de Foucauld, o chamado para ir com Jesus ao deserto, faz parte de seu chamado a
uma missão de oração, contemplação e adoração. É o mesmo Espírito de Jesus de
Nazaré que chama o irmãozinho a descer para o espaço missionário dos pobres e
subir à montanha para estar com Deus, fonte de toda missão e contemplação.
Saibamos
voltar para Jesus; saibamos voltar ao essencial; saibamos voltar para o radical. Saibamos descobrir em Jesus o
caminho do discipulado missionário.
Aprendamos
a fazer a encarnação do nosso ser na pessoa de Jesus, para nos
tornarmos amantes do Senhor, amantes de nós mesmos/as, amantes dos filhos de
Deus, sendo um dom de Deus, de maneira original.
CONCLUSÃO
1.
Escute,
com doçura de coração, o que o Senhor te revela;
2.
Anote
as revelações do Senhor para você;
3.
Faça
a renovação da sua aliança de amor com Jesus.