domingo, 29 de novembro de 2015

DESERTO MISSIONÁRIO

CHAMADO AO DESERTO

- Os 2,16: Agora, sou eu que vou seduzi-la.  Vou levá-la ao deserto e conquistar o seu coração.
- Os 2,21: Eu me casarei com você para sempre. Me casarei com você na justiça e no direito. No amor e na ternura. Eu me casarei com você na fidelidade e você conhecerá Jave.

O Deserto é o lugar da solidão e do despojamento, onde a pessoa vivencia, de modo radical, o amo de Deus e a misericórdia para com os irmãos. Através da história, o deserto mantém a sua importância fundamental para a espiritualidade bíblica e cristã.

Entramos na solidão do deserto para encontrar Jesus e estar com ele e só com ele. Com Jesus encontramos a nós mesmos/as; encontramos a nossa essência, o nosso eu, a minha natureza, quem eu estou sendo, quem eu quero ser. É somente lá, no mais profundo do nosso ser, com a iluminação divina, que poderemos nos encontrar; ou seja,  que poderemos vislumbrar o sonho de Deus para a nossa existência. Somos um projeto maravilhoso de Deus.  O  deserto é um meio para um encontro vivificante com Deus e com  a essência do nosso ser.

O deserto tem seus próprios valores. Traz em si o sinal da aridez, do despojamento para todos os sentidos, tanto para a vista como para os ouvidos. Traz em si o sinal da pobreza, da austeridade, da profunda simplicidade; o sinal da total incapacidade do ser humano, que nele descobre sua fraqueza, pois o ser humano no deserto, nada pode fazer para subsistir por si mesmo, sendo obrigado a só em Deus buscar força e socorro. É Deus que nos conduz ao deserto. Experienciar o deserto é uma tentativa de caminhar despojado, fraco, sem qualquer apoio humano, no jejum de todo alimento ao encontro de Deus. A oração no deserto é uma espera do alimento que Deus vai enviar, como fez com Elias e com os hebreus na sua caminhada exodal-pascal.

O que é muito importante na experiência do deserto é o despojamento total e espera pacífica e silenciosa de Deus. Essa espera passiva e orante se torna um grito de súplica lançado a Deus. Para ir ao deserto é preciso crer que Deus pode vir a nosso encontro na contemplação e, para saborear a graça de sua visita, é preciso desejá-la com alegria e confiança. É preciso a humildade do coração, a aceitação da austeridade e simplicidade dessa forma de encontro com Deus. É também na nudez do deserto que cairão as ilusões de tudo que entulha nosso coração. Só pode caminhar sozinho na experiência do deserto quem tiver o coração simples e pobre. O encontro contemplativo com Deus no deserto é a fonte de nossa fidelidade às exigências de uma vida contemplativa e missionária.

DESERTO: UMA ESPIRITUALIDADE LIBERTADORA
Entramos na solidão do deserto para encontrar Jesus e estar com ele e só com ele. Com Jesus encontramos nossa verdadeira natureza e jeito de ser e viver. É um verdadeiro encontro consigo mesmo que brota do encontro com quem unicamente pode nos fazer mudar para melhor. A verdadeira solidão mística nunca nos deixará longe de Deus, nem de nós mesmos, pois é um encontro vivificante com Deus, fonte de nossa vida e espiritualidade. Segundo Galilea desenvolve quatro pontos para compreender melhor a experiência contemplativa e agraciante do deserto (A graça da desolação: influência dos padres do deserto na espiritualidade contemporânea. Loyola, l988):

Tudo é relativo diante do absoluto que é Deus. No deserto estamos a sós diante de Deus e sua presença amorosa vem nos plenificar a dar sentido as nossas vidas. Não necessitamos de mais nada; despojamo-nos de todas as outras realidades. É um despojamento radical para podermos amar e buscar Deus com todo o coração. Só Deus basta! Ele á a rocha que sustenta a nossa vida tantas vezes ameaçada pelas nossas fragilidades. Assim, no deserto, todas as coisas são relativas e relativizadas.

Diante do Criador conhecemos na verdade quem somos. O deserto é lugar da autenticidade, da transparência e da verdade. A ambiguidade de nossas motivações e de nossa generosidade e gratuidade vêm à tona, e nos vemos tais quais somos, ou melhor, tais como Deus nos vê. O deserto é lugar de conversão e da purificação e pacificação do coração. Pois se em verdade buscamos a Deus, a tomada de consciência leva-nos a optar pela luz que o deserto nos revela e a despojar-nos das trevas dos nossos motivos e das nossas atitudes. Leva-nos a fazer calar as vozes enganosas que surgem dos ídolos da sociedade neoliberal, das ideologias, da riqueza e do bem estar, do prestígio e do poder, das compensações sutis do prazer. O deserto é caminho da libertação interior.
Recebemos um amor que transborda de nós. O deserto ensina-nos a amar verdadeiramente. O aprendizado do amor fraterno requer de nós uma atitude fraternal. A solidão dá lugar à compaixão e misericórdia porque nos faz morrer ao próximo. Uma das grandes expressões da libertação em nossa vida é a vivência do amor fraterno. Precisamos sair do egoísmo que nos afasta dos nossos irmãos e irmãs.
Pela batalha é que conseguimos a vitória. O deserto é lugar da tentação e da provação, da crise e também da sua superação. Toda vitória passa pela batalha. O sentido da ascese, da abnegação e da luta contra as paixões é de grande valia para nós que constantemente buscamos a Deus. Buscamos alcançar um amor maior a Deus e aos irmãos e  irmãs.

DESERTO: EXPERIÊNCIA DO SACRAMENTO DO MOMENTO PRESENTE
O momento presente é nosso espaço de vida espiritual. Esse é o lugar a partir do qual começamos a entrar, o mais plenamente que pudermos, no momento presente, descartando todas as coisas passadas e futuras que possam fazer que a nossa atenção perca seu foco exclusivo em Deus. Esse é o único lugar da mãe terra em que o tempo pode tocar a eternidade. Para santificar esse lugar e consagrá-lo a Deus, os padres do deserto fizeram um tempo prolongado de reconciliação com Deus, e nele, com seus irmãos e irmãs. Tornou-se momento de purificação e pacificação pessoal, para que nossas culpas passadas não nos perturbassem. O momento presente é sacramento, pois se trata do único momento que o tempo toca a eternidade.A oração é a oferta que faz dele um lugar sagrado, em que o humano e o divino encontram-se, formando uma unidade.
Deserto é o momento em que nos colocamos livres para algo da maior importância em nossa vida, que é amar e vivenciar ser amado. Jesus também quis, mais do que tudo, receber e vivenciar o amor do Pai. Quis também retribuir e partilhar com outras pessoas o que recebera. Isso implicar em estruturar sua vida de modo  que pudesse ter constante acesso ao amor que  partilharia com seus irmãos e irmãs. Jesus ia ao templo e à sinagoga com seus discípulos. Passava momentos pessoais de solidão contemplativa. Ele soube descobrir e usufruir o momento presente, buscando um espaço de vida espiritual. Ele orientava seus discípulos a evitar fazer a oração de modo ostentatório pela qual muitos escribas e fariseus rezavam em público, a fim de atrair a atenção para si. Por isso, o deserto é uma graça – estar a sós com Mestre!
É bom ter um pequeno espaço de vida espiritual, uma capelinha nos fundos da casa, para podermos nos retirar ao nosso deserto, e ali encontrar a liberdade interior para receber e vivenciar o mesmo amor que inspirou Jesus e transformou tudo aquilo que ele fez.

COM JESUS NO DESERTO
Ir. Carlos de Foucauld deu uma ênfase à vida de fraternidade solidária entre os pobres. O segredo de um comprometimento missionário passa pelas nossas experiências de deserto, isto é, nossa contemplação nos vários espaços de vida, onde estamos diante do Mestre do nosso caminhar. A oração meditada e contemplada da Palavra de Deus, na qual aprendemos ser e viver como discípulos e discípulas amados a maneira de Jesus ser e viver. Com Jesus identificamos as raízes da nossa missão e fazemos o discernimento necessário para fazer sempre a vontade do Pai.
Para os irmãozinhos de Carlos de Foucauld, o chamado para ir com Jesus ao deserto, faz parte de seu chamado a uma missão de oração, contemplação e adoração. É o mesmo Espírito de Jesus de Nazaré que chama o irmãozinho a descer para o espaço missionário dos pobres e subir à montanha para estar com Deus, fonte de toda missão e contemplação.
Saibamos voltar para Jesus; saibamos voltar ao essencial; saibamos voltar para  o radical. Saibamos descobrir em Jesus o caminho do discipulado missionário.
Aprendamos a fazer  a encarnação do  nosso ser na pessoa de Jesus, para nos tornarmos amantes do Senhor, amantes de nós mesmos/as, amantes dos filhos de Deus, sendo um  dom de Deus,  de maneira original.

CONCLUSÃO
1.       Escute, com doçura de coração, o que o Senhor te revela;
2.       Anote as revelações do Senhor para você;
3.       Faça a renovação da sua aliança de amor com Jesus.