quinta-feira, 27 de setembro de 2018

ANTROPOLOGIA DA VOCAÇÃO CRISTÃ

Ver a aflição do povo é o aspecto específico da vocação cristã.
“Eu vi a aflição do meu povo...” (Ex 3,7-10).

Muitas pessoas se engajam na construção de uma nova sociedade tendo como horizonte e parâmetros valores ético-humanos como a justiça, a fraternidade, a paz, as condições básicas para uma humana digna, os direitos humanos, a ecologia.  Embora essas pessoas com suas lutas e movimentos se determinem explicitamente a partir de valores humanos, elas são, implicitamente iluminadas, inspiradas e fortalecidas pelo Deus que ama e salva.

Outras pessoas com o seu deus cujo nome defere do nosso Deus e em nome de suas outras religiões ou culturas, também se asseguram no bem, na esperança, na resistência ao inimigo e na defesa da vida contribuindo assim, para assegurar e, ou, construir a fraternidade entre as pessoas. 

De muitas mediações se serve o Deus do Reino para oferecer suas graças à humanidade. Com suas diferentes práticas e credos, muitos grupos e povos contribuem para a implantação do Reino de Deus entre os homens, participando implicitamente da missão do Espírito, através das mediações de seu contexto histórico–social e de seu engajamento em favor da vida e da nova sociedade.

A prática que traz o reino não se reduz aos cristãos e à Igreja, mas o reino vem através de todos aqueles que lutam pela liberdade e dignidade dos homens; a Igreja não detém o monopólio do Espírito de Deus. Tampouco Ele é privilégio dos cristãos. Deus usa também os partidos políticos organizados em função do bem comum, os movimentos populares, os grupos organizados que reivindicam os direitos aos homens e realizam a justiça na história. Em Is 45, Ciro, rei do Império Persa é considerado como o ungido e enviado de Deus para a libertação dos oprimidos.

Deus se serve de todos os movimentos de justiça, de fraternidade e de humanidade para instaurar o seu reino. Deus já está nas organizações sociais e de libertação antes de comprometermo-nos nelas.

Os cristãos e a Igreja não detêm os processos libertários, mas esses pertencem a Deus e a seus filhos.

Com os objetivos de preservar a vida do povo e transformar as relações sociais em vista de uma sociedade humana e igualitária, muita gente: negros, índios, cristãos e não cristãos, sustentaram uma luta até as últimas conseqüências. Foram perseguidos, torturados e mortos. Tornaram-se mártires e heróis do povo e o seu sangue continua fermentando a nossa história de libertação.  A vida de tantos agentes comunitários como a de tantos anônimos que morreram em defesa da vida, é mobilizadora de consciências.

A prática de fé, de libertação e o martírio de uma multidão de pessoas na América Latina (jovens, camponeses, estudantes, operários, religiosos, sacerdotes e alguns bispos) que enfrentaram e resistiram aos opressores, nos questiona e nos impele a encarnar na história nossa resposta aos clamores dos pobres. Os testemunhos dos mártires e heróis na América Latina reforçam a nossa vocação.

A herança dos mártires e heróis nos convoca à fidelidade, ao seguimento radical e à entrega total,8 até que a fraternidade de Deus torne realidade para todos os povos da terra.”

Diante de uma sociedade injusta, diante da opulência de alguns e da miséria dos povos empobrecidos; a partir de nossa fé no Deus-Bíblico-Libertador; a partir do testemunho dos profetas bíblicos, dos nossos mártires, dos heróis do povo e da multidão de anônimos que resistiram até a morte contra a dominação dos opressores, o cristão não pode furtar-se à sua vocação. Pelo seguimento radical do Cristo, que morreu por uma causa revolucionária, o cristão está implicado na luta de libertação do pecado que está institucionalizado nas estruturas sócio-econômico-político-social e cultural.

Os cristãos têm a responsabilidade primeira de denunciar profeticamente as causas das injustiças sociais. A militância  dos cristãos nos processos de libertação constitui um autêntico testemunho da força do Evangelho

Quanto mais nos aprofundarmos na interpretação da Palavra segundo a ótica dos pobres e na experiência do Deus vivo e libertador, mais fecundo vai ser o fruto político do nosso compromisso: a Boa Nova para os pobres.

 “Oxalá chegue esse dia, que ele esteja chegando e a gente o faça chegar.”


sexta-feira, 21 de setembro de 2018

FUNDAMENTAÇÃO BÍBLICA E TEOLÓGICA DA MISSÃO

Encontramos o fundamento da nossa ação pastoral e da cidadania na ação criadora e misericordiosa de Deus que interfere na história, em defesa dos pequenos, para realizar justiça:

“Eu vi a aflição do meu povo. Eu ouvi os seus clamores.
Eu conheço os seus sentimentos.
Vai, eu te envio. Eu, estarei contigo”.
                                  (Ex 3, 7-10)

Deus revela, Deus envia, Deus liberta. Deus promove. O nosso Deus deu-se a conhecer, revelou-se para uma experiência de libertação.  Através das organizações, lutas e conquistas o povo de Israel foi desenvolvendo a sua fé num Deus Vivo, Libertador, comprometido com a Justiça.

Êxodo: a experiência de libertação do Êxodo é a experiência fundante da nossa fé. A partir do Êxodo o compromisso com a Justiça é o eixo condutor da ação de Deus que interfere na história em defesa dos pequenos. O compromisso com a justiça, eixo de toda a Bíblia, é a base da nossa ação pastoral.

Profetas: A Justiça e a libertação foi o objetivo da luta dos profetas. Os profetas conheciam bem a realidade, enxergavam as raízes, as causas da opressão e viam por onde passava o caminho da justiça. Os profetas são sensíveis às dores dos pobres, apontam as saídas e articulam os pobres na busca da vida.

Maria: em seu cântico, resume o anseio histórico dos pobres e celebra uma transposição de Justiça que Deus realizará na história:

“Depôs do trono os poderosos e exaltou os humildes”.
Encheu de bens os famintos e despediu ricos em nada.” (Lc1, 51-52).

 



JESUS: dá continuidade á dinâmica da justiça e da libertação presente no Êxodo e nos Profetas. Ele condena as injustiças sociais e se solidariza com os pobres numa prática que inaugura o Reino de Deus.

“O Espírito de Deus está sobre mim. Ele me ungiu para anunciar a Boa Notícia aos pobres, para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista. Para restituir a liberdade aos cativos e proclamar o ano da graça”. (Lc 4,18-19)
(projeto da vida de Jesus)

“Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo:
 “Os cegos recuperam a vista; os coxos andam; leprosos são curados, surdos ouvem, os mortos resuscitam e a Boa Notícia é anunciada aos pobres.” (Mt 11,4-6).

(chave para avaliação do nosso agir: estamos no caminho certo?
Devemos prosseguir ou rever a eficácia da nossa prática.).

“Tive fome e me deste de comer. Tive sede e me deste de beber.
 Era migrante e você me acolheu. Estive nu e me vestiste. Estive doente e me cuidaste.
Estive preso e veste me ver.” (Mt 25, 35-36).

(a chave do agir cristão é a solidariedade com os que sofrem.
A credibilidade da nossa fé depende da nossa solidariedade).
  

Jesus propõe uma nova sociedade: uma sociedade de justiça e de fraternidade, com novas relações sociais, econômicas e políticas.

Na dimensão social: os excluídos recobram a dignidade. São critérios para a construção da justiça, da fraternidade e critérios de avaliação da existência humana. Tornam-se juízes da história. Seremos julgados no rosto e na dor dos pobres.

A dimensão econômica: se baseia na partilha, na igualdade: Ela exige a nossa participação na construção de uma sociedade justa, igualitária, inclusiva, para que possa haver comunhão. (At 2;42;  Mc 6,35-44).

Na dimensão política: autoridade é aquela que mais e melhor serve.
JO 13,14-16: Jesus lava os pés dos discípulos  para nos ensinar a servir.
JO 15,12-13: O grande mandamento do amor, a chave do cristianismo.
Mc 10, 32-45: Autoridade é serviço. Quem quiser ser o maior, seja o servo de todos.

Seguir a Cristo, ser cristão, é dar prosseguimento ao seu projeto de construção do Reino de Deus. É a construção do Reino de Deus que justifica o “ser Cristão”.

A construção do Reino de Deus passa pela transformação desta  nossa sociedade. Para isso temos  que desvendar os mecanismos de opressão, pecado  e morte e  assumir, com os empobrecidos, um processo de luta pela  vida, pela dignidade humana, pela justiça.

O Espírito nos convoca no grito, na dor dos necessitados. Novos problemas sociais têm sua origem na modernização da sociedade. A economia vem produzindo cada vez mais com menos trabalhadores. Temos uma multidão de trabalhadores desempregados. A cada ano centenas de jovens chegam ao mercado de trabalho sem nenhuma perspectiva. Boa parte da população ativa dos pais está fora do mercado formal de trabalho. O desemprego é o nosso maior problema social. A isso soma se: subemprego, violência, criminalidade,  fome, prostituição, alcoolismo, tráfico e dependência das drogas, falta de moradia na cidade  e de terra para o trabalho, alienação social e política, falta de dignidade humana e de cidadania.

Como ser fiel à convocação do Espírito? O objetivo da nossa ação deve ser:
  1. Ouvir os clamores mais urgentes da população oprimida e marginalizada.
  2. Responder a esses clamores (problemas) numa perspectiva de construção da justiça social e do Reino de Deus. 

Para isso precisamos: 
  • Fazer um diagnóstico da realidade para ver os problemas maiores que aflige o povo;
  • Fazer uma análise social, econômica e política da realidade para ver: quais as causas que estão gerando os problemas? Quais as conseqüências destes problemas?
  • Priorizar o que é mais urgente; O que solucionar primeiro;
  • Buscar as experiências afins que já existem e que estão dando certo?
  • Fazer uma proposta de solução com metas claras e estratégias que garantam a eficácia da proposta. Temos que atacar as causas que geram o sofrimento e a exclusão e não ficarmos apenas nos efeitos;
  • Ter uma visão de conjunto: ação local com visão global
  • Manter a dimensão missionária: do centro para a periferia – em busca das áreas mais carentes e dos maiores desafios.
  • Qualificar lideranças para o trabalho social e a cidadania política.
  • Atuar nas linhas de frente: Pastoral do mundo do trabalho; Economia Solidária, Reforma Agrária,  Movimento da Moradia, Fé e Política, Educação Popular, Terceira Idade.

  
Quando estamos fazendo o Reino de Deus acontecer;
quando estamos construindo a Boa Nova,
sentimos uma grande alegria:
sinal da presença de Deus entre nós.

domingo, 9 de setembro de 2018

A CURA DO SURDO E MUDO (Mc 7, 31-37)

Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão (Mc 31a).

Jesus se retira com o SURDO para um lugar a sós.    Jesus TOCA o surdo. É o momento da escuta profunda do outro,  do encontro, da intimidade. Momento da  experiência da Ternura de Deus feita através da pessoa de Jesus. Só o amor nos rende ao outro.

Em seguida colocou o dedo nos seus ouvidos (Mc 7,33b)

JESUS ABRE O OUVIDO AO SURDO.  Ouvir significa: 
  • Captar, discernir, entender a novidade que Jesus apresenta,   a possibilidade de de uma nova vida, de um mundo novo.  
  • Despertar, acordar, levantar, dispor-se a possibilidade de um mundo de Justiça e paz que podemos construir  como Reino de Deus.
Podemos fazer uma nova história - Construir um novo mundo.  O  Mundo é de Deus – O mundo é nosso.   Somos parceiros do  Reino.

O EVANGELHO – BOA NOVA PARA OS POBRES  traz em si a FORÇA RESSUSCITANTE E  REESTRUTURANTE do nosso ser, da vida e da sociedade. O EVANGELHO TRAZ EM SI A FORÇA DA CRIAÇÃO; O DINAMISMO DA RESSURREIÇÃO.

Jesus é a força que nos toca, que opera em nós e que transforma a realidade através de nós. Embora a ação de Deus no mundo transcenda a nossa ação.  O contato com Jesus nos faz descobrir, ouvir, entender e tomar posse desta força de ressurreição que nos habita.

O Espírito de Deus age na história através de todas as pessoas e movimentos que lutam pela vida, pela justiça, de maneira implícita.  Mas, o cristão é a manifestação explicita da ação justa e misericordiosa de Deus no mundo. O cristão age em nome de Deus e com o coração de Deus, pelo seguimento da pessoa de Jesus de Nazaré.

Se o Evangelho não nos toca, não produz mudança em nós, é porque não nos abrimos a ele totalmente. 

Cuspiu e com a saliva tocou a língua dele. Olhando para o céu, suspirou e disse: Efatá!', que quer dizer: 'Abre-te!' Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade (Mc 33b-35).

JESUS ABRE A BOCA AO SURDO:  primeiro acordar, entender, despertar, acolher. Depois ANUNCIAR,  que  inclui falar, convocar, planejar, executar,  executar a BOA NOVA DO EVANGELHO, a boa nova da Justiça -  que é reestruturante da vida,  que é vida nova: que é pão e amor.

O anuncio da Boa Nova do Evangelho  transforma se em pastorais, serviços, movimentos, organizações sociais,  lutas, conquistas, direitos, mais vidas, revisão, libertação, plenitude. Exemplos de serviço à vida, hoje: a luta Movimento Sem Terra; os programas de ação da Cáritas.

O Espírito  Santo de Deus manifestado em Jesus, e manifestado também em nós, é força mobilizadora de energia para o Reino: Reino de amor, de solidariedade e justiça.

O surdo representa todos os deserdados deste mundo que são chamados a se tornarem sujeitos de sua história de salvação.  Javé é o Deus dos pobres.  O Projeto de Deus privilegia os pobres.

'Ele tem feito bem todas as coisas: Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar' (Mc 7,37).

Qualquer ação evangélica deve ser feita com afetividade e efetividade. Deve causar impacto social, mudança concreta, palpável na vida dos mais pobres; mudança que se faz com  empoderamento, o protagonismo e a cidadania dos excluídos.

QUESTIONAMENTOS
·         A quem estamos privilegiando? Porque há tantos deserdados e mutilados neste mundo?
·         É possível viver a fé sem comprometer se com as transformações sociais que o seguimento de Jesus exige?
·         Quais as exigências que o Evangelho nos faz hoje? 

sábado, 8 de setembro de 2018

COMUNIDADES SURDAS QUE OUVEM POUCO O EVANGELHO E O COMUNICAM MAL

Talvez um dos pecados mais graves dos cristãos de hoje, é esta surdez. Não paramos para ouvir o evangelho de Jesus. Não vivemos com o coração aberto para acolher as suas palavras. 

Por isso que não sabemos ouvir com paciência e compaixão a tantos que sofrem sem receber apenas o carinho e nem a atenção de ninguém.

As vezes se diria que a igreja, nascida de Jesus para anunciar a sua boa notícia, vai fazendo o seu próprio caminho, esquecida com frequência da vida concreta de preocupações, medos, trabalhos e esperanças das pessoas. 


Se não ouvirmos bem as chamadas de Jesus, não colocaremos palavras de esperança na vida dos que sofrem.

Há algo de paradoxal em alguns discursos da igreja. Dizem-se grandes verdades, mas não tocam o coração das pessoas. Alguma coisa disto está acontecendo nestes tempos de crise. 


A sociedade não está esperando "doutrina religiosa" de especialistas, mas uma palavra  inspirada no evangelho de Jesus, pronunciada por uma igreja sensível ao sofrimento das vítimas, e que sabe sair  em sua defesa convidando-nos a estarmos perto de quem mais precisa de ajuda para viver com dignidade humana.


Domingo 23 tempo ordinário – b (Marcos 7,31-37) 
José Antonio Pagola