Encontramos o fundamento da nossa ação pastoral e da cidadania na ação criadora e misericordiosa de Deus que interfere na história, em defesa dos pequenos, para realizar justiça:
“Eu vi a aflição do meu povo. Eu ouvi os seus clamores.
Eu conheço os seus sentimentos.
Vai, eu te envio. Eu, estarei contigo”.
(Ex 3, 7-10)
Deus revela, Deus envia, Deus liberta. Deus promove. O nosso Deus deu-se a conhecer, revelou-se para uma experiência de libertação. Através das organizações, lutas e conquistas o povo de Israel foi desenvolvendo a sua fé num Deus Vivo, Libertador, comprometido com a Justiça.
Êxodo: a experiência de libertação do Êxodo é a experiência fundante da nossa fé. A partir do Êxodo o compromisso com a Justiça é o eixo condutor da ação de Deus que interfere na história em defesa dos pequenos. O compromisso com a justiça, eixo de toda a Bíblia, é a base da nossa ação pastoral.
Profetas: A Justiça e a libertação foi o objetivo da luta dos profetas. Os profetas conheciam bem a realidade, enxergavam as raízes, as causas da opressão e viam por onde passava o caminho da justiça. Os profetas são sensíveis às dores dos pobres, apontam as saídas e articulam os pobres na busca da vida.
Maria: em seu cântico, resume o anseio histórico dos pobres e celebra uma transposição de Justiça que Deus realizará na história:
“Depôs do trono os poderosos e exaltou os humildes”.
Encheu de bens os famintos e despediu ricos em nada.” (Lc1, 51-52).

JESUS: dá continuidade á dinâmica da justiça e da libertação presente no Êxodo e nos Profetas. Ele condena as injustiças sociais e se solidariza com os pobres numa prática que inaugura o Reino de Deus.
“O Espírito de Deus está sobre mim. Ele me ungiu para anunciar a Boa Notícia aos pobres, para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista. Para restituir a liberdade aos cativos e proclamar o ano da graça”. (Lc 4,18-19)
(projeto da vida de Jesus)
“Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo:
“Os cegos recuperam a vista; os coxos andam; leprosos são curados, surdos ouvem, os mortos resuscitam e a Boa Notícia é anunciada aos pobres.” (Mt 11,4-6).
(chave para avaliação do nosso agir: estamos no caminho certo?
Devemos prosseguir ou rever a eficácia da nossa prática.).
“Tive fome e me deste de comer. Tive sede e me deste de beber.
Era migrante e você me acolheu. Estive nu e me vestiste. Estive doente e me cuidaste.
Estive preso e veste me ver.” (Mt 25, 35-36).
(a chave do agir cristão é a solidariedade com os que sofrem.
A credibilidade da nossa fé depende da nossa solidariedade).

Jesus propõe uma nova sociedade: uma sociedade de justiça e de fraternidade, com novas relações sociais, econômicas e políticas.
Na dimensão social: os excluídos recobram a dignidade. São critérios para a construção da justiça, da fraternidade e critérios de avaliação da existência humana. Tornam-se juízes da história. Seremos julgados no rosto e na dor dos pobres.
A dimensão econômica: se baseia na partilha, na igualdade: Ela exige a nossa participação na construção de uma sociedade justa, igualitária, inclusiva, para que possa haver comunhão. (At 2;42; Mc 6,35-44).
Na dimensão política: autoridade é aquela que mais e melhor serve.
JO 13,14-16: Jesus lava os pés dos discípulos para nos ensinar a servir.
JO 15,12-13: O grande mandamento do amor, a chave do cristianismo.
Mc 10, 32-45: Autoridade é serviço. Quem quiser ser o maior, seja o servo de todos.
Seguir a Cristo, ser cristão, é dar prosseguimento ao seu projeto de construção do Reino de Deus. É a construção do Reino de Deus que justifica o “ser Cristão”.
A construção do Reino de Deus passa pela transformação desta nossa sociedade. Para isso temos que desvendar os mecanismos de opressão, pecado e morte e assumir, com os empobrecidos, um processo de luta pela vida, pela dignidade humana, pela justiça.
O Espírito nos convoca no grito, na dor dos necessitados. Novos problemas sociais têm sua origem na modernização da sociedade. A economia vem produzindo cada vez mais com menos trabalhadores. Temos uma multidão de trabalhadores desempregados. A cada ano centenas de jovens chegam ao mercado de trabalho sem nenhuma perspectiva. Boa parte da população ativa dos pais está fora do mercado formal de trabalho. O desemprego é o nosso maior problema social. A isso soma se: subemprego, violência, criminalidade, fome, prostituição, alcoolismo, tráfico e dependência das drogas, falta de moradia na cidade e de terra para o trabalho, alienação social e política, falta de dignidade humana e de cidadania.
Como ser fiel à convocação do Espírito? O objetivo da nossa ação deve ser:
- Ouvir os clamores mais urgentes da população oprimida e marginalizada.
- Responder a esses clamores (problemas) numa perspectiva de construção da justiça social e do Reino de Deus.
Para isso precisamos:
- Fazer um diagnóstico da realidade para ver os problemas maiores que aflige o povo;
- Fazer uma análise social, econômica e política da realidade para ver: quais as causas que estão gerando os problemas? Quais as conseqüências destes problemas?
- Priorizar o que é mais urgente; O que solucionar primeiro;
- Buscar as experiências afins que já existem e que estão dando certo?
- Fazer uma proposta de solução com metas claras e estratégias que garantam a eficácia da proposta. Temos que atacar as causas que geram o sofrimento e a exclusão e não ficarmos apenas nos efeitos;
- Ter uma visão de conjunto: ação local com visão global
- Manter a dimensão missionária: do centro para a periferia – em busca das áreas mais carentes e dos maiores desafios.
- Qualificar lideranças para o trabalho social e a cidadania política.
- Atuar nas linhas de frente: Pastoral do mundo do trabalho; Economia Solidária, Reforma Agrária, Movimento da Moradia, Fé e Política, Educação Popular, Terceira Idade.
Quando estamos fazendo o Reino de Deus acontecer;
quando estamos construindo a Boa Nova,
sentimos uma grande alegria:
sinal da presença de Deus entre nós.
