sexta-feira, 2 de novembro de 2018

O EVANGELHO DAS BEM AVENTURANÇAS - Mt 5,1-12

1.     Felizes os pobres em espírito porque deles é o Reino dos céus.
2.     Felizes os aflitos porque serão consolados.
3.     Felizes os mansos porque possuirão a terra.
4.     Felizes os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados.
5.     Felizes os que são misericordiosos porque encontrarão misericórdia.
6.     Felizes os puros de coração porque verão a Deus.
7.     Felizes os que promovem a paz porque serão chamados filhos de Deus.
8.     Felizes os que são perseguidos por causa da justiça porque deles é o Reino de céus.
9.     Felizes vocês quando forem perseguidos por causa de mim.  Grande será a vossa recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês.

Para onde irei? Para onde Jesus iria.  Para a ovelha mais sofrida, para os irmãos mais doentes, para os mais abandonados, para os mais cegos, para os mais perdidos.

As bem aventuranças resumem a vida de Jesus de Nazaré. O modelo de uma vida bem aventurada é o próprio Jesus Cristo. O Evangelho das bem-aventuranças é um projeto de vida missionaria em vista do Reino.  

É feliz quem consegue pautar a sua vida conforme os critérios de Jesus de Nazaré. Seguir a Jesus no caminho das bem aventuranças é seguir o caminho do amor libertador, da misericórdia e da justiça.

As bem aventuranças são o anúncio de libertação e felicidade e não de conformismo e alienação. Elas anunciam a vinda do Reino através da prática de Jesus. A prática de Jesus torna a justiça de Deus presente no mundo.  Justiça para aqueles que são inúteis ou incômodos para a sociedade. Sociedade esta baseada na riqueza que explora o povo e no poder que os oprime.

Os que buscam a justiça do Reino são os pobres da terra.  Rejeitados pela sociedade estes pobres dependem da misericórdia de Deus.

A palavra bem-aventurado em hebraico significa assumir um caminho, tomar um rumo na vida.  Pessoas bem aventuradas põem seus pés nos passos de Jesus, rumo ao Reinado de Deus que é a fraternidade universal. 

O pecado deste mundo nega esperança aos pobres. Hoje, há mais riqueza na terra, no entanto há mais injustiça. Na África muitos sobrevivem com nada e muitos morrem de fome.  Aos imigrantes nega se o chão e a hospitalidade. Guerras, crianças órfãs, população em situação de risco, violências de diversas formas, extermínio da juventude negra, Juventude aliciada ao tráfico; desempregados, sem terra e sem teto, população de rua, idosos abandonados e maltratados, fome, miséria, violência contra a mulher, feminicídio, morte precoce, são marcas do pecado social e estrutural em nossa sociedade.

Diante do clamor dos aflitos, Deus nos convoca para as bem-aventuranças. Para colocarmos a nossa vida em favor dos mais necessitados. Para transformarmos a dor e a morte em libertação e vida.

Nossas opções precisam ser elaboradas com clareza, firmeza e teimosia para que possamos ajudar na construção de um mundo mais justo, fraterno e igualitário para os pobres e com os pobres. 

Não devemos ter medo de olhar de frente as exigências de Jesus para a construção do Reinado de Deus.  

A espiritualidade das bem aventuranças é a espiritualidade da prática libertadora de Jesus.

Somos bem aventurados quando assumimos a construção do Reino de Deus: Reino de igualdade, compreensão, misericórdia, amizade, afeto.




quarta-feira, 3 de outubro de 2018

“O QUE DEUS UNIU O HOMEM NÃO SEPARE” - 27º Domingo TC

Na Primeira Leitura, Gn 2, 18-24,  vemos o  matrimônio como símbolo de que  Deus criou o ser humano (homem e mulher) para a igualdade de condições e para a  comunhão fraterna.
O Homem e a Mulher são criaturas de Deus com igual dignidade.  Ambos vem do pó e tem em si o sopro divino da vida.  O importante não é o ter, o poder, mas a capacidade de amar, de relacionar-se.
O matrimônio simboliza também a união íntima entre Cristo e a Igreja.  Se Cristo tem amor predileto pelos pobres e pela causa dos pobres, e, por causa dos pobres tem zelo pela justiça, a fidelidade a Cristo, como Mestre e Senhor passa pela misericórdia com os pobres e pela construção da justiça social, para concretizar a verdadeira caridade.

No AT só o homem podia dar o documento de divórcio à mulher.  Os fariseus e doutores da lei estão querendo legitimar a discriminação da mulher como parte integrante do projeto de Deus.  Na legislação romana também a mulher tem o direito de tomar a iniciativa e pedir o divórcio.

No Evangelho de Mc 10, 2-16:  Jesus vai colocar o matrimônio na lógica do projeto de Deus.  Quem se divorcia de sua mulher  e casa com outra, comete adultério contra a primeira. E se a mulher se divorcia de seu marido e casa com outro, comete adultério (Mc 10, 11-12). Jesus põe Homem e Mulher em igual condições e os torna para sempre um responsável pelo outro.

Em Mc 10,13-16 Jesus faz opção pelos pobres. Terminada a catequese sobre o matrimônio, Marcos insere uma cena na qual são apresentadas crianças a Jesus para que Ele as tocasse. O texto quer mostrar o que a Comunidade deve fazer com os pobres.  As crianças, por serem indefesas, sem ter poder de decisão, representam todos os empobrecidos e marginalizados da sociedade.

Os discípulos procuram afastar as crianças de Jesus. Eles acham que os pobres não devem incomodar o mestre.  Jesus se irrita com os discípulos e garante que o Reino de Deus é dos pobres. 

Na segunda leitura,  Hb 2, 9-11,    Os destinatários do texto são um grupo de cristãos querendo abandonar a fé em Jesus. Supõe se que são cristãos convertidos da comunidade cristã de  Roma.
·  Eles sentem a dificuldade em aceitar a forma humilhante e dolorosa da vida de Jesus (Hb 2);
·  Estão sendo perseguidos por serem cristãos;
·  Estão desiludidos por não verem realizada a salvação final;
· Tem forte influência do AT.

O Projeto de Deus é conduzir a humanidade à vida Plena, pela mediação de seu Filho Jesus. Jesus se torna irmão solidário dos homens e assume totalmente os problemas dos pobres até a morte na cruz.  A humanidade encontra em Jesus um semelhante seu, capaz de ser sua garantia junto a Deus, como verdadeiro sacerdote. Doravante, Jesus é o único mediador entre Deus e os homens. Ele é o único santuário e sacerdote, fiel à Deus e solidário com os homens.   E o sacrifício de Jesus, de agora em diante, é o único agradável a Deus.  Este texto é importante no quadro geral do novo testamento: Apresenta Jesus como aquele que supera a Instituição Cultural do Antigo Testamento. 

Os cristãos são convidados a superar o escândalo da paixão e morte de Jesus e caminhar com o Ressuscitado, dando continuidade ao Projeto iniciado por Jesus.


Pe José Bortolini
In Roteiros Homiléticos,  Ano B,   27º Domingo.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

ANTROPOLOGIA DA VOCAÇÃO CRISTÃ

Ver a aflição do povo é o aspecto específico da vocação cristã.
“Eu vi a aflição do meu povo...” (Ex 3,7-10).

Muitas pessoas se engajam na construção de uma nova sociedade tendo como horizonte e parâmetros valores ético-humanos como a justiça, a fraternidade, a paz, as condições básicas para uma humana digna, os direitos humanos, a ecologia.  Embora essas pessoas com suas lutas e movimentos se determinem explicitamente a partir de valores humanos, elas são, implicitamente iluminadas, inspiradas e fortalecidas pelo Deus que ama e salva.

Outras pessoas com o seu deus cujo nome defere do nosso Deus e em nome de suas outras religiões ou culturas, também se asseguram no bem, na esperança, na resistência ao inimigo e na defesa da vida contribuindo assim, para assegurar e, ou, construir a fraternidade entre as pessoas. 

De muitas mediações se serve o Deus do Reino para oferecer suas graças à humanidade. Com suas diferentes práticas e credos, muitos grupos e povos contribuem para a implantação do Reino de Deus entre os homens, participando implicitamente da missão do Espírito, através das mediações de seu contexto histórico–social e de seu engajamento em favor da vida e da nova sociedade.

A prática que traz o reino não se reduz aos cristãos e à Igreja, mas o reino vem através de todos aqueles que lutam pela liberdade e dignidade dos homens; a Igreja não detém o monopólio do Espírito de Deus. Tampouco Ele é privilégio dos cristãos. Deus usa também os partidos políticos organizados em função do bem comum, os movimentos populares, os grupos organizados que reivindicam os direitos aos homens e realizam a justiça na história. Em Is 45, Ciro, rei do Império Persa é considerado como o ungido e enviado de Deus para a libertação dos oprimidos.

Deus se serve de todos os movimentos de justiça, de fraternidade e de humanidade para instaurar o seu reino. Deus já está nas organizações sociais e de libertação antes de comprometermo-nos nelas.

Os cristãos e a Igreja não detêm os processos libertários, mas esses pertencem a Deus e a seus filhos.

Com os objetivos de preservar a vida do povo e transformar as relações sociais em vista de uma sociedade humana e igualitária, muita gente: negros, índios, cristãos e não cristãos, sustentaram uma luta até as últimas conseqüências. Foram perseguidos, torturados e mortos. Tornaram-se mártires e heróis do povo e o seu sangue continua fermentando a nossa história de libertação.  A vida de tantos agentes comunitários como a de tantos anônimos que morreram em defesa da vida, é mobilizadora de consciências.

A prática de fé, de libertação e o martírio de uma multidão de pessoas na América Latina (jovens, camponeses, estudantes, operários, religiosos, sacerdotes e alguns bispos) que enfrentaram e resistiram aos opressores, nos questiona e nos impele a encarnar na história nossa resposta aos clamores dos pobres. Os testemunhos dos mártires e heróis na América Latina reforçam a nossa vocação.

A herança dos mártires e heróis nos convoca à fidelidade, ao seguimento radical e à entrega total,8 até que a fraternidade de Deus torne realidade para todos os povos da terra.”

Diante de uma sociedade injusta, diante da opulência de alguns e da miséria dos povos empobrecidos; a partir de nossa fé no Deus-Bíblico-Libertador; a partir do testemunho dos profetas bíblicos, dos nossos mártires, dos heróis do povo e da multidão de anônimos que resistiram até a morte contra a dominação dos opressores, o cristão não pode furtar-se à sua vocação. Pelo seguimento radical do Cristo, que morreu por uma causa revolucionária, o cristão está implicado na luta de libertação do pecado que está institucionalizado nas estruturas sócio-econômico-político-social e cultural.

Os cristãos têm a responsabilidade primeira de denunciar profeticamente as causas das injustiças sociais. A militância  dos cristãos nos processos de libertação constitui um autêntico testemunho da força do Evangelho

Quanto mais nos aprofundarmos na interpretação da Palavra segundo a ótica dos pobres e na experiência do Deus vivo e libertador, mais fecundo vai ser o fruto político do nosso compromisso: a Boa Nova para os pobres.

 “Oxalá chegue esse dia, que ele esteja chegando e a gente o faça chegar.”


sexta-feira, 21 de setembro de 2018

FUNDAMENTAÇÃO BÍBLICA E TEOLÓGICA DA MISSÃO

Encontramos o fundamento da nossa ação pastoral e da cidadania na ação criadora e misericordiosa de Deus que interfere na história, em defesa dos pequenos, para realizar justiça:

“Eu vi a aflição do meu povo. Eu ouvi os seus clamores.
Eu conheço os seus sentimentos.
Vai, eu te envio. Eu, estarei contigo”.
                                  (Ex 3, 7-10)

Deus revela, Deus envia, Deus liberta. Deus promove. O nosso Deus deu-se a conhecer, revelou-se para uma experiência de libertação.  Através das organizações, lutas e conquistas o povo de Israel foi desenvolvendo a sua fé num Deus Vivo, Libertador, comprometido com a Justiça.

Êxodo: a experiência de libertação do Êxodo é a experiência fundante da nossa fé. A partir do Êxodo o compromisso com a Justiça é o eixo condutor da ação de Deus que interfere na história em defesa dos pequenos. O compromisso com a justiça, eixo de toda a Bíblia, é a base da nossa ação pastoral.

Profetas: A Justiça e a libertação foi o objetivo da luta dos profetas. Os profetas conheciam bem a realidade, enxergavam as raízes, as causas da opressão e viam por onde passava o caminho da justiça. Os profetas são sensíveis às dores dos pobres, apontam as saídas e articulam os pobres na busca da vida.

Maria: em seu cântico, resume o anseio histórico dos pobres e celebra uma transposição de Justiça que Deus realizará na história:

“Depôs do trono os poderosos e exaltou os humildes”.
Encheu de bens os famintos e despediu ricos em nada.” (Lc1, 51-52).

 



JESUS: dá continuidade á dinâmica da justiça e da libertação presente no Êxodo e nos Profetas. Ele condena as injustiças sociais e se solidariza com os pobres numa prática que inaugura o Reino de Deus.

“O Espírito de Deus está sobre mim. Ele me ungiu para anunciar a Boa Notícia aos pobres, para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista. Para restituir a liberdade aos cativos e proclamar o ano da graça”. (Lc 4,18-19)
(projeto da vida de Jesus)

“Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo:
 “Os cegos recuperam a vista; os coxos andam; leprosos são curados, surdos ouvem, os mortos resuscitam e a Boa Notícia é anunciada aos pobres.” (Mt 11,4-6).

(chave para avaliação do nosso agir: estamos no caminho certo?
Devemos prosseguir ou rever a eficácia da nossa prática.).

“Tive fome e me deste de comer. Tive sede e me deste de beber.
 Era migrante e você me acolheu. Estive nu e me vestiste. Estive doente e me cuidaste.
Estive preso e veste me ver.” (Mt 25, 35-36).

(a chave do agir cristão é a solidariedade com os que sofrem.
A credibilidade da nossa fé depende da nossa solidariedade).
  

Jesus propõe uma nova sociedade: uma sociedade de justiça e de fraternidade, com novas relações sociais, econômicas e políticas.

Na dimensão social: os excluídos recobram a dignidade. São critérios para a construção da justiça, da fraternidade e critérios de avaliação da existência humana. Tornam-se juízes da história. Seremos julgados no rosto e na dor dos pobres.

A dimensão econômica: se baseia na partilha, na igualdade: Ela exige a nossa participação na construção de uma sociedade justa, igualitária, inclusiva, para que possa haver comunhão. (At 2;42;  Mc 6,35-44).

Na dimensão política: autoridade é aquela que mais e melhor serve.
JO 13,14-16: Jesus lava os pés dos discípulos  para nos ensinar a servir.
JO 15,12-13: O grande mandamento do amor, a chave do cristianismo.
Mc 10, 32-45: Autoridade é serviço. Quem quiser ser o maior, seja o servo de todos.

Seguir a Cristo, ser cristão, é dar prosseguimento ao seu projeto de construção do Reino de Deus. É a construção do Reino de Deus que justifica o “ser Cristão”.

A construção do Reino de Deus passa pela transformação desta  nossa sociedade. Para isso temos  que desvendar os mecanismos de opressão, pecado  e morte e  assumir, com os empobrecidos, um processo de luta pela  vida, pela dignidade humana, pela justiça.

O Espírito nos convoca no grito, na dor dos necessitados. Novos problemas sociais têm sua origem na modernização da sociedade. A economia vem produzindo cada vez mais com menos trabalhadores. Temos uma multidão de trabalhadores desempregados. A cada ano centenas de jovens chegam ao mercado de trabalho sem nenhuma perspectiva. Boa parte da população ativa dos pais está fora do mercado formal de trabalho. O desemprego é o nosso maior problema social. A isso soma se: subemprego, violência, criminalidade,  fome, prostituição, alcoolismo, tráfico e dependência das drogas, falta de moradia na cidade  e de terra para o trabalho, alienação social e política, falta de dignidade humana e de cidadania.

Como ser fiel à convocação do Espírito? O objetivo da nossa ação deve ser:
  1. Ouvir os clamores mais urgentes da população oprimida e marginalizada.
  2. Responder a esses clamores (problemas) numa perspectiva de construção da justiça social e do Reino de Deus. 

Para isso precisamos: 
  • Fazer um diagnóstico da realidade para ver os problemas maiores que aflige o povo;
  • Fazer uma análise social, econômica e política da realidade para ver: quais as causas que estão gerando os problemas? Quais as conseqüências destes problemas?
  • Priorizar o que é mais urgente; O que solucionar primeiro;
  • Buscar as experiências afins que já existem e que estão dando certo?
  • Fazer uma proposta de solução com metas claras e estratégias que garantam a eficácia da proposta. Temos que atacar as causas que geram o sofrimento e a exclusão e não ficarmos apenas nos efeitos;
  • Ter uma visão de conjunto: ação local com visão global
  • Manter a dimensão missionária: do centro para a periferia – em busca das áreas mais carentes e dos maiores desafios.
  • Qualificar lideranças para o trabalho social e a cidadania política.
  • Atuar nas linhas de frente: Pastoral do mundo do trabalho; Economia Solidária, Reforma Agrária,  Movimento da Moradia, Fé e Política, Educação Popular, Terceira Idade.

  
Quando estamos fazendo o Reino de Deus acontecer;
quando estamos construindo a Boa Nova,
sentimos uma grande alegria:
sinal da presença de Deus entre nós.

domingo, 9 de setembro de 2018

A CURA DO SURDO E MUDO (Mc 7, 31-37)

Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão (Mc 31a).

Jesus se retira com o SURDO para um lugar a sós.    Jesus TOCA o surdo. É o momento da escuta profunda do outro,  do encontro, da intimidade. Momento da  experiência da Ternura de Deus feita através da pessoa de Jesus. Só o amor nos rende ao outro.

Em seguida colocou o dedo nos seus ouvidos (Mc 7,33b)

JESUS ABRE O OUVIDO AO SURDO.  Ouvir significa: 
  • Captar, discernir, entender a novidade que Jesus apresenta,   a possibilidade de de uma nova vida, de um mundo novo.  
  • Despertar, acordar, levantar, dispor-se a possibilidade de um mundo de Justiça e paz que podemos construir  como Reino de Deus.
Podemos fazer uma nova história - Construir um novo mundo.  O  Mundo é de Deus – O mundo é nosso.   Somos parceiros do  Reino.

O EVANGELHO – BOA NOVA PARA OS POBRES  traz em si a FORÇA RESSUSCITANTE E  REESTRUTURANTE do nosso ser, da vida e da sociedade. O EVANGELHO TRAZ EM SI A FORÇA DA CRIAÇÃO; O DINAMISMO DA RESSURREIÇÃO.

Jesus é a força que nos toca, que opera em nós e que transforma a realidade através de nós. Embora a ação de Deus no mundo transcenda a nossa ação.  O contato com Jesus nos faz descobrir, ouvir, entender e tomar posse desta força de ressurreição que nos habita.

O Espírito de Deus age na história através de todas as pessoas e movimentos que lutam pela vida, pela justiça, de maneira implícita.  Mas, o cristão é a manifestação explicita da ação justa e misericordiosa de Deus no mundo. O cristão age em nome de Deus e com o coração de Deus, pelo seguimento da pessoa de Jesus de Nazaré.

Se o Evangelho não nos toca, não produz mudança em nós, é porque não nos abrimos a ele totalmente. 

Cuspiu e com a saliva tocou a língua dele. Olhando para o céu, suspirou e disse: Efatá!', que quer dizer: 'Abre-te!' Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade (Mc 33b-35).

JESUS ABRE A BOCA AO SURDO:  primeiro acordar, entender, despertar, acolher. Depois ANUNCIAR,  que  inclui falar, convocar, planejar, executar,  executar a BOA NOVA DO EVANGELHO, a boa nova da Justiça -  que é reestruturante da vida,  que é vida nova: que é pão e amor.

O anuncio da Boa Nova do Evangelho  transforma se em pastorais, serviços, movimentos, organizações sociais,  lutas, conquistas, direitos, mais vidas, revisão, libertação, plenitude. Exemplos de serviço à vida, hoje: a luta Movimento Sem Terra; os programas de ação da Cáritas.

O Espírito  Santo de Deus manifestado em Jesus, e manifestado também em nós, é força mobilizadora de energia para o Reino: Reino de amor, de solidariedade e justiça.

O surdo representa todos os deserdados deste mundo que são chamados a se tornarem sujeitos de sua história de salvação.  Javé é o Deus dos pobres.  O Projeto de Deus privilegia os pobres.

'Ele tem feito bem todas as coisas: Aos surdos faz ouvir e aos mudos falar' (Mc 7,37).

Qualquer ação evangélica deve ser feita com afetividade e efetividade. Deve causar impacto social, mudança concreta, palpável na vida dos mais pobres; mudança que se faz com  empoderamento, o protagonismo e a cidadania dos excluídos.

QUESTIONAMENTOS
·         A quem estamos privilegiando? Porque há tantos deserdados e mutilados neste mundo?
·         É possível viver a fé sem comprometer se com as transformações sociais que o seguimento de Jesus exige?
·         Quais as exigências que o Evangelho nos faz hoje? 

sábado, 8 de setembro de 2018

COMUNIDADES SURDAS QUE OUVEM POUCO O EVANGELHO E O COMUNICAM MAL

Talvez um dos pecados mais graves dos cristãos de hoje, é esta surdez. Não paramos para ouvir o evangelho de Jesus. Não vivemos com o coração aberto para acolher as suas palavras. 

Por isso que não sabemos ouvir com paciência e compaixão a tantos que sofrem sem receber apenas o carinho e nem a atenção de ninguém.

As vezes se diria que a igreja, nascida de Jesus para anunciar a sua boa notícia, vai fazendo o seu próprio caminho, esquecida com frequência da vida concreta de preocupações, medos, trabalhos e esperanças das pessoas. 


Se não ouvirmos bem as chamadas de Jesus, não colocaremos palavras de esperança na vida dos que sofrem.

Há algo de paradoxal em alguns discursos da igreja. Dizem-se grandes verdades, mas não tocam o coração das pessoas. Alguma coisa disto está acontecendo nestes tempos de crise. 


A sociedade não está esperando "doutrina religiosa" de especialistas, mas uma palavra  inspirada no evangelho de Jesus, pronunciada por uma igreja sensível ao sofrimento das vítimas, e que sabe sair  em sua defesa convidando-nos a estarmos perto de quem mais precisa de ajuda para viver com dignidade humana.


Domingo 23 tempo ordinário – b (Marcos 7,31-37) 
José Antonio Pagola

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

22º Domingo do Tempo Comum – 2 de setembro

Na liturgia deste dia, o Senhor nos convida a manter uma relação de intimidade com ele, à qual somos chamados desde a criação. Essa relação tornou-se frágil a partir do desvio do ser humano no jardim do Éden, e por isso o convite divino é recorrente.

Toda a história da salvação é constante chamado de Deus à escuta de sua Palavra. É de Deus a iniciativa de entrar em diálogo com o ser humano e de caminhar com ele. Ao ser humano cabe a escuta que exige atenção, discernimento, compromisso, engajamento.
A chave da liturgia hoje é a escuta obediente a Deus.
I leitura: Dt 4,1-2.6-8
O Deuteronômio é constituído por uma série de discursos de Moisés, antes de sua morte, enquanto os israelitas estavam no limiar da terra prometida. Esses discursos consistem em um plano de ação, uma instrução que deveria conduzir a vida do povo após a entrada na terra.
Assim, após breve evocação histórica da caminhada feita até então, Israel é exortado a observar a Lei do Senhor. Esse olhar retrospectivo sobre a salvação realizada por Deus em favor de seu povo, tirando-o do Egito, da terra da escravidão, abençoando-o, acompanhando-o pelo deserto, estando com ele (cf. Dt 2,7), é o fundamento das palavras que serão ditas, as quais Israel deve escutar e guardar. Também a entrega da Lei é ato salvífico, pois de sua observância depende a vida e a posse da terra (Dt 4,1).
As leis, decretos e mandamentos são dom de Deus para seu povo. Palavra a ser acolhida, guardada e praticada, pois nela a comunidade israelita se reconhece e por ela são reconhecidas, perante os outros povos, sua sabedoria e inteligência. Israel é o povo eleito, escolhido por Deus por sua benevolência e amor misericordioso (cf. Dt 6,7-8). Assim, a eleição de Israel é, ao mesmo tempo, dom e tarefa, acompanhada da missão de manifestar e tornar conhecido seu Deus entre os povos.

II leitura: Tg 1,17-18.21b-22.27
O ser humano é criado à imagem de Deus e chamado a relacionar-se com ele. Pela Palavra, o ser humano foi criado e, pela acolhida da Palavra, é salvo, realiza sua vocação e identidade mais profunda.
O cristão deve responder à Palavra de Deus com a escuta ativa. A proposta dessa Palavra diz respeito à pessoa integralmente, exige total comprometimento. A religião pura e sem mancha exige transformar a Palavra em boas obras. A pureza exigida pelo culto é a do amor e da prática da justiça, sobretudo para com os mais necessitados.
Evangelho: Mc 7,1-8.14-15.21-23
O convite à escuta permeia toda a Bíblia. Abre a confissão de fé do povo de Israel: “Ouve, ó Israel…” (Dt 6,4).
No entanto, ouvir a Palavra de Deus ultrapassa o sentido de escutar, dar ouvidos, prestar atenção.  Exige compromisso e engajamento. Evoca a ação do próprio Deus, que ouviu o grito do seu povo e desceu a fim de libertá-lo (cf. Ex 3,7-8).
A escuta autêntica da Palavra a base para a relação com Deus e para o conhecimento de seu projeto para a humanidade. A escuta autêntica tem como consequência imediata uma resposta à comunicação de Deus, que toma a iniciativa de pôr-se em diálogo com o ser humano e revelar-se a si mesmo e o mistério de sua vontade (cf. DV I, 2).
A Palavra acolhida tem consequências históricas. Desperta o amor e o engajamento em favor dos outros; a dedicação a uma causa; a força para encarar o sofrimento e os males do mundo como desafio; a criatividade para identificar o que pode ser feito para modificar a situação; a alegria e a esperança apesar do sofrimento realizando assim o propósito do Pai.
Para Jesus as práticas cultuais, as doutrinas e a religiosidade vazia de seus acusadores estavam relacionadas a seu coração distante de Deus (cf. Mc 7,6).
1.    Será que a Palavra de Deus nos transforma, nos entusiasma, mobiliza a nossas energias para sermos autênticos discípulos de Jesus?
2.    A Palavra de Deus nos faz reveladores de esperanças para os pobres?
3.    O Deus em quem cremos é o Deus de Jesus Cristo?


Resumo do texto de Ir. Rita Maria Gomes, nj -  in Vida Pastoral.
Ir. Rita Maria Gomes, nj, é natural do Ceará, onde fez seus estudos em Filosofia no Instituto Teológico e Pastoral do Ceará (Itep), atual Faculdade Católica de Fortaleza. Possui graduação, mestrado e doutorado em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje), onde leciona Sagrada Escritura. É membro do Instituto Religioso Nova Jerusalém, que tem como carisma o estudo e o ensino da Sagrada Escritura. E-mail: ritamarianj@gmail.com

EVANGELHO DO 21º DOMINGO – VOCÊ TAMBÉM QUER ME ABANDONAR?


Jesus, no Evangelho de João, capítulo 6, afirma que dará a sua Carne para a vida do mundo; que Ele é o pão vivo descido do céu;   que  “quem come a sua  carne e bebe o seu sangue tem a vida eterna”.  

Jesus   quer habitar em nós.  Isto implica que sejamos alimento de amor e de esperança para os que sofrem; serviço de misericórdia e de justiça para a humanidade e o mundo.

Jesus pergunta então a Pedro que permanece diante dele: e você? “Não quer partir?” A pergunta de Jesus é firme e exige posicionamento.

Pedro então faz sua confissão de fé: “onde iria? Se Tu tens palavras de vida eterna”. Pedro confia, reconhece Jesus como o Enviado de Deus, o Messias. Responde pelos doze, assume a responsabilidade também por eles.

A pergunta feita a Pedro é dirigida a nós hoje.   As palavras duras de Jesus exigem compromisso concreto.

Nós também precisamos compreender que receber o Cristo não pode se limitar a um ato ritual. Precisa ser ato transformador, interior e exterior, concreto.

O cristianismo não pode se limitar a ritos, penitências e esmolas, mas exige fidelidade à pessoa de Jesus e à sua causa, em serviços concretos de misericórdia e de justiça, de modo afetivo e efetivo, até que todos tenham vida plena, em Deus.
Para João, Jesus é o enviado de Deus; é Aquele que revela o Pai aos homens. Jesus revela que o Pai nos ama e quer que tenhamos vida plena.

Jesus é o verbo de Deus feito carne que veio para vida aos homens. As obras que Jesus realiza são provas de que realmente ele é o enviado de Deus e que Deus lhe deu poder; Que ele vem de Deus e a Deus retornará.

Jesus é a fonte da vida plena que vem a nós pelo seguimento radical da sua pessoa e da sua proposta. Segundo João é preciso aderir a pessoa de Jesus para que os homens tenham vida plena.  
A vida definitiva começa quando os homens, comprometendo se com Jesus, assumem viver em favor dos irmãos, segundo a proposta de Jesus.

 Crer em Jesus é dar continuidade ao seu Projeto.

sábado, 11 de agosto de 2018

CONSIDERAÇÕES SOBRE O EVANGELHO DE JESUS CRISTO SEGUNDO SÃO JOÃO – CAP. 6


Jesus realiza a multiplicação dos pães numa alusão a Eucaristia. E a Eucaristia aponta para o projeto de Deus que é uma sociedade igualitária, de justiça e fraternidade. Jesus aponta para uma nova ordem social que garanta a inclusão de todos e a vida plena para todos.

Jesus propõe uma sociedade baseada na partilha, governada com predileção para com os pobres e oprimidos e onde  autoridade é aquela que serve.  Esta proposta de Jesus é caminho para vencer o pecado e a morte presente nas estruturas opressoras; Caminho para que a humanidade tenha vida verdadeira, plena e definitiva.

Jesus nos convoca para transformar a realidade de morte em realidade de vida.

Com a chave: “Dai lhes vós mesmos de comer” Jesus indica que o projeto de Deus – uma sociedade igualitária, justa e fraterna passa por nós.

Participar da celebração da Eucaristia significa que estamos explicitamente implicados com a construção do Reino de Deus; Reino de Justiça, de fraternidade e bem aventurança para todos os filhos de Deus.

Jesus exorta o povo que o procurava: “Não trabalhem pelo alimento que estraga. Trabalhem pelo alimento que dura para a vida eterna”. Qual é o alimento que dura para sempre?  É o Reino de misericórdia, de justiça e fraternidade.   Com isto Jesus nos pede que trabalhemos pelo Reino de Deus. Trabalhemos para salvar, defender e promover a vida; para gerar vida para os outros; até que Deus, em seu infinito amor, seja tudo em todos.

“Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim não terá mais fome. E quem acredita em mim nunca mais terá sede”.
O que significa não ter mais fome; não ter mais sede? Quem acolhe a pessoa de Jesus e assume o seu projeto; quem diz sim ao plano salvífico de Deus, faz a salvação acontecer aqui e agora para os pobres e os que sofrem. A vida definitiva começa quando os homens se tornam discípulos e missionários de Jesus; quando se comprometem com as reais causas dos pobres, antecipando a chegada do Reino. Participamos já, aqui e agora, do Reino de Deus, embora de forma limitada, até o dia em que alcançaremos a plenitude no amor. 

Em  JO 6,41-51 – Destacamos as seguintes afirmações de Jesus:  “EU SOU O PÃO DA VIDA.” “EU SOU O PÃO DESCIDO DO CÉU. QUEM COMER DESTE PÃO VIVERÁ ETERNAMENTE.” “E O PÃO QUE EU DAREI É A MINHA CARNE DADA PARA A VIDA DO MUNDO.”
Estas frases são uma alusão à morte na cruz pela qual Jesus iria passar.  Jesus convive com os pobres, conhece os seus sofrimentos e conhece também a trama dos poderes opressores.  Jesus assume a defesa dos pobres até o fim, até a morte na cruz. 

O pão do céu é a pessoa de Jesus e a  proposta de Jesus. Comer o pão da vida é dar adesão à pessoa de Jesus e à causa de Jesus; é ser como Jesus: dar a vida para que os outros tenham vida. Deus nos alimenta para juntos construirmos o seu Reino de Amor e justiça.

Acreditar em Jesus é viver como Jesus viveu: na escuta profunda da vontade do Pai, no serviço aos pobres e na luta contra tudo o que destrói a vida do seu povo.  Assim seremos também nós, pão vivo, repartido para a vida do mundo. Pão de solidariedade, de justiça, de fraternidade.

A celebração da Eucaristia é um ato de fé, de persistência e de resistência na construção do Reinado de Deus – Reinado de amor, de justiça, de fraternidade.

Que lugar ocupa Jesus em nossa vida? O Projeto de Jesus tem um impacto real na nossa opção de vida?  Quais são os reflexos do nosso seguimento de Jesus  na comunidade e na sociedade?
O que dificulta hoje, o nosso encontro com Jesus?  Estamos sendo fonte de vida, de amor e de justiça em nossa comunidade e sociedade?

Tenhamos coragem de comer o Pão da vida que é Jesus de Nazaré, nos colocando como discípulos/as e missionários/as da Boa Nova para os pobres, acreditando que “um outro mundo é possível,’ pois Deus nunca se esquece da aliança que fez com o seu povo e conta conosco para realizar o seu plano de amor.